terça-feira, 1 de janeiro de 2013

As promessas do início do ano são sempre comuns. Projetos, metas, sonhos, ideais. A ilusão que quando o "novo" começa e com ele a possibilidade de fazermos o que há muito desejamos, é sempre estimulante. 
Mas, e o que aprendemos ao longo da trajetória passada, do momento vivido, do encontro que fez efeito e trouxe sentido?
Olhar para frente é importante, necessário até, mas o que ficou lá trás também referencia o que somos hoje e o que desejamos amanhã.
A idéia de deixar o passado no passado é questionável, pois somos efeito e feito desse passado. Um passado com dramas ou felicidades, um passado traumático ou estimulante, um passado triste ou alegre. Quando temos a coragem de mexer nesse passado, ele vai nos lembrar das perdas e das dores que eventualmente existiram. Lembrar como as superamos pode ser muito empolgante, muito estimulante, pode ser realmente um recomeço.
Mas quando o ano começa, a tradição nos diz, "olhe para frente", "pense o que desejas para o ano que se inicia"! Imperativamente, nos sentimos renovados, com o prazo de vencimento zerado e a validade reiniciada para tentar mais uma vez ao longo dos próximos 365 dias o que não fizemos nos 365 passados. 
Mas por que não fizemos o que nos propomos fazer? Vale a reflexão! 
Desejamos que o novo ano seja de força para seguir em frente nas propostas, metas e ideais, mas não sem antes espiar o que não foi possível de seguir, continuar e realizar. 
Para isso, é necessário coragem; que em 2013 você tenha de montão!


domingo, 4 de novembro de 2012

"Uma pessoa cujo trabalho conquistou meu respeito é Maria Helena Pereira Franco. O Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), fundado por ela, é importante centro de pesquisa e serviços na área. Maria Helena traduziu dois dos meus livros para o português e foi graças a ela que obtive o privilégio e o prazer de ir ao Brasil em várias ocasiões, o que me permitiu conhecer muitos jovens psicólogos e terapeutas que têm dado continuidade a esse trabalho pioneiro no país. Durante minhas visitas ao Brasil, fiquei impressionado com o entusiasmo, o compromisso e a capacidade de acolhimento dos muitos estudantes e profissionais que fazem um trabalho bastante promissor."
(Colin Murray Parkes)

Colin Parkes é a nossa referência maior, mundial, papa nos estudos sobre Luto. A sua fala referenciando o trabalho e construção da querida mestra Maria Helena Pereira Franco, já diz absolutamente tudo!
Sentimos um misto de ansiedade e forte expectativa pelo encontro que teremos com ela, a maior referência brasileira sobre Luto, no dia 15 de Dezembro.

O Instituto Entrelaços recebe a consultoria técnica da Profa Maria Helena, e ao seu lado, procuramos construir e sedimentar um lugar ético e cuidadoso no atendimento a pessoas enlutadas, bem como na educação continuada, com promoção de cursos e demais espaços de estudos, foco também do Instituto.

Se inscreva no Workshop, venha aprender e compartilhar suas experiências, ao lado de quem mais sabe sobre o assunto!

Aguardamos vocês!

Informações no nosso site: www.institutoentrelacos.com

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Como você explica para seus filhos o feriado de Finados?
Como se explica para crianças que hoje é o Dia dos Mortos?
Se fala com as crianças sobre o nascer, mas e sobre o morrer?
Por que é tão difícil falar da morte?
Tema tabu esse, que ao longo dos séculos, continua assustando, amedrontando e para uns, arrepiando no fundo da alma.
Medo da morte, medo da dor de quem fica, medo de deixar o que construímos, medo de ser esquecido. 
Morte e medo, andando sempre de mãos dadas.
Alguns, diante da religião e a partir de suas crenças, tem a morte como um lugar do conforto e do bem estar, mas morte é despedida e dizer adeus para quem se ama, costuma causar dor.
Não tem jeito, a morte é o final da caminhada do sentir a presença, e isso realmente dói!
Mas e as nossas crianças, sentem essa morte como? De que lugar? Como encontram sentido se para nós, adultos, já é muito difícil?
Deixamos aqui a nossa reflexão, e hoje gostaríamos de tocar os pais, os educadores, aqueles que trabalham com as crianças. Como aproximar da infância um tema como esse, e que fundamentalmente, faz parte da vida? Qual recurso podemos usar? Como ajudá-los com o conteúdo da morte?
É importante que elas entendam que somos finitos no momento que nascemos, mas podemos nos tornar infinitos no momento que construímos laços, formando relações afetivas e de apego. 
A morte fala do fim, os laços do início.





sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A tristeza faz parte do processo da perda e da dor. 
A falta de brilho no olhar, dias que insistem em demorar para passar, a vida fica sem cor, sem som, sem cheiro.
Sobreviventes das perdas, daquilo que se foi, do que se rompeu.
A dor de estar só num mundo cheio de gente, a falta de um, um que representa tudo, que representa dois, e assim na falta de representação, passa a representar tudo o que falta. Paradoxos do luto.
A falta de sentido para certas dores, a falta de clareza para entender o processo da tristeza.
A reconstrução existe, acredite, mas a temporalidade do que se repara depende daquilo que se perdeu, do lugar que ocupava, do afeto que existia e do vínculo que era formado.
Calma, serenidade, paciência e elaboração, são ingredientes que ajudam no processo.
O processo que você vive é apenas seu. Por isso, aproprie-se da sua dor, autorize o que sente, viva a sua ausência, pois só assim, ela poderá se transformar e se reorganizar.
O até logo pode assim, transformar o nunca mais e o para sempre!

sábado, 6 de outubro de 2012

Disco o número escrito no recorte de papel, sinto-me um pouco nervosa, penso na dor da família e se será bom falar comigo, mas acho importante a possibilidade dos fechamentos. Eu não estava lá quando aconteceu, foi num domingo.
Do outro lado da linha, uma voz suave atende e de imediato reconhece a minha voz. Sinto que ela se emociona ao falar comigo, eu me emociono ao falar com ela. 
Ela me faz algumas perguntas: "Como faço para aprender a viver sozinha? Como faço para mexer nas coisas dele? Como faço para ocupar todo o espaço da cama?Como faço para aprender ser só eu?" Ela pede um roteiro, um mapa, um código para seguir em frente. 
Ser estrangeiro no mundo da dor, é algo realmente desorganizador. 
Fico em silêncio do outro lado da linha, escuto o choro, quase um gemido, é baixo, é frágil, é a dor do luto que grita frente a ausência de quem se ama. 
Eu falo pra ela: "A morte não leva o que está dentro, o que construíram, o que viveram ao longo dos felizes 38 anos de casamento. Mas a morte deixa dor, muita dor sim, e é isso que você tem agora, mas não é isso que vai ficar com você. Não é justo com a  história de vocês." 
De alguma maneira, essa fala, acalma o pesar dessa mulher, e assim, podemos conversar alguns minutos sobre os filhos, netos e a história dessa família. 
Recordamos juntas que durante o processo de adoecimento, ele falava sobre ser a referência e o norte de sua família, aquele que resolvia, que acalmava, que tinha solução e caminhos para tudo. Do quanto ele sentia pena de sentir que seu fim estava próximo, ele sentia muito por não poder mais acompanhar os netos nas tarefas de casa, algo que ele adorava fazer, ele sentia pena de ter que ir embora. 
Conversamos sobre o que foi, sobre o que se viveu, sobre o que aconteceu, mas conseguimos transformar e fechar a conversa, no que ainda vai ser, no que se espera acontecer, no que ainda pode-se viver.
Termino falando do prazer de conhecê-los e da honra de escutar e compartilhar os últimos dias de seu marido.
Desligo o telefone, fico sentada alguns minutos antes de atender o próximo paciente, e sinto saudades desse homem, das conversas que tivemos, de sua simplicidade e do amor que emanava de seus olhos ao encontro de sua esposa.
Lembro que o registro dos nossos encontros também está dentro de mim, que o que foi construído não será perdido, a morte não tem se poder.
Assim, reorganizada, abro a porta e chamo a próxima família.